Faz tempo, desde a minha primeira visita... É porque não senti a necessidade de conversar com alguém que não visse de perto tudo que eu ando passando, sabe? Mas é por isso que eu tô aqui agora. Essa vontade tá latente. E faz pouquíssimo tempo que surgiu, acho que foi pela manhã, logo depois de ligar o computador sem nem ao menos escovar os dentes. Tem sido assim ultimamente. É aquela velha história de permanecer com uma atitude que você considera prejudicial, mesmo que você se diga o tempo todo que aquilo devia ser ser diferente no fim das contas. Sabe, o tempo tá passando, Nunes, mas muita coisa ainda permanece - e não deveria. Parece que falta disposição, falta mais porrada e marcas pelo corpo pra eu tomar plena consciência de que mudar é preciso. Parece que não adianta eu enxergar as coisas bem embaixo do meu nariz, parece que elas têm que me acertarem e me fazerem sangrar. Vai doer.
Sabe de outra coisa, Nunes? Eu vim aqui, botar pra fora, desabafar sobre a minha vida, mas creio que pouco adianta qualquer conselho que você irá me dar. Entra por um ouvido e sai por outro. Na verdade, ele percorre aqui dentro por um tempo, suficiente pra me fazer acreditar que vai ser diferente, mas depois se vai...
Deve existir alguma parte do meu cérebro que foi feita pra armazenar esses conselhos e elaborar outros, próprios, que nunca servem pra mim, apenas para os outros. Quando ocorre uma inversão de papéis e alguém busca ajuda em mim, parece que eu sei o que dizer, na maioria das vezes. Parece que já passei por aquilo e sei a melhor forma da pessoa lidar com aquilo. É desesperador, às vezes. Às vezes eu nem ligo.
Enfim, toma aqui o dinheiro da consulta de hoje. Volto outro dia, quando eu surtar de novo, quem sabe. Tchau.
E se participei, moço. O sofá do consultório é muito aconchegante, notei de longe, quis me sentar e fiquei por aqui mesmo. Fiquei observando tudo, procurando algo em ti que exista em mim (velha mania de início). Encontrei, moço. E, sabe, é engraçado quando você acha que é o único que se sente de um determinado jeito e, de repente, encontra alguém que também sinta o mesmo. Falo de saber exatamente o que dizer para as pessoas. E eu sei mesmo como é. Aconselho desde os cinco até os oitenta, como se minha idade nem mesmo existisse no tempo. Mas, quando alguma parte de cinco ou oitenta de mim pede ajuda... Aí é diferente. Só que entre as respostas que temos para as pessoas, há, sim, aquela que também é para nós. Só pense mais em si quando estiver num momento desses. (E lá estou eu aconselhando. Risos.)
ResponderExcluirUm beijo e até algum outro dia.